Original en Portugués
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Carla Valadas,
Doctora en Sociología (FEUC). Profesora adjunta. Escuela Superior de Educación y Ciencias Sociales.
Instituto Politécnico de Leiria. Portugal.
Investigadora integrada.
Centro de Estudios Interdisciplinarios. Universidad de Coimbra. Portugal.
Mário Ribeiro,
Doctorando en Ciencias Sociales. Facultad de Traducción y Documentación.
Universidad de Salamanca. España.
Coordinador Equipo Multidisciplinar del Observatorio de las Migraciones
Agencia para la Integración, Migraciones y Asilo (AIMA). Lisboa. Portugal
Pedro Góis,
Doctor en Sociología. Profesor asociado, con agregación.
Facultad de Economía. Universidad de Coimbra. Portugal.
Director del Observatorio de las Migraciones
Agencia para la Integración, las Migraciones y el Asilo (AIMA). Lisboa. Portugal
Margarida Franca,
Doctora en Geografía (FLUC). Profesora adjunta invitada.
Escuela Superior de Educación y Ciencias Sociales del Instituto Politécnico de Leiria. Portugal.
Investigadora del CITER (Centro de Investigación en Teología y Estudios Religiosos).
Universidad Católica Portuguesa. Lisboa. Portugal
Nos últimos anos, Portugal tem acolhido uma grande diversidade de imigrantes, provenientes de diferentes geografias. Esta diversidade coloca desafios acrescidos aos serviços de saúde, particularmente ao nível regional e local, onde os recursos disponíveis e as respostas institucionais nem sempre acompanham este desenvolvimento. O princípio do acesso universal, garantido pela lei, confronta-se frequentemente com a realidade quotidiana: dificuldades de inscrição nos cuidados de saúde primários, barreiras linguísticas e burocráticas, tempos de espera prolongados, entre outros. A experiência portuguesa mostra, assim, uma tensão constante entre a “law in books” e a prática efetiva. Este artigo descreve o modo como as políticas públicas, as práticas de mediação intercultural e as redes em comunidade contribuem para humanizar o acolhimento, enfrentar dilemas éticos e espirituais. Mostra também como, apesar de todos estes constrangimentos, é possível construir um sentido de hospitalidade capaz de inspirar, a uma escala mais alargada, o debate ibérico sobre saúde, migrações e ética.
Palavras-Chave: Hospitalidade, Imigrantes, (acesso à) Saúde
In recent years, Portugal has received a great diversity of immigrants from different places.
This diversity poses additional challenges to the health services, especially at regional and
local level, where the available resources and the institutional responses do not always
accompany this development. The principle of universal access, guaranteed by law, often
clashes with day-to-day reality: difficulties in registering for primary care, language and
bureaucratic barriers, and long waiting times, among others. The Portuguese experience
thus presents a constant tension between “the law in books” and effective practice.
This paper describes how public policies, intercultural mediation practices and community networks contribute to humanise reception and to face up to ethical and spiritual dilemmas. It also shows how it is possible, despite all these limitations, to build a sense of hospitality capable of inspiring, on a broader scale, the Iberian debate on health, migrations and ethics.
Keywords: Hospitality, Immigrants, Care.
01 | Porquê falar de hospitalidade e migrações na saúde?
Nos últimos vinte anos, Portugal passou, progressivamente, a ser país de emigração e país de imigração. Atualmente (2024), mais de 1,5 milhões de cidadãos estrangeiros residem no território nacional representando mais de 14% da população total (Observatório das Migrações, 2025).
Este fenómeno trouxe novos desafios ao sistema de saúde português, tanto ao nível organizacional, como ao nível clínico ou ético. Sabendo que o acesso à saúde é um dos elementos centrais para garantir o bem-estar social, a prestação de serviços e cuidados de qualidade pressupõe um acolhimento o mais integral possível, gentil, com afeto, capaz de acolher as necessidades de todos independentemente da sua condição, origem social ou pertença étnica.
Por conseguinte, falar de hospitalidade no contexto da saúde implica reconhecer que o acolhimento deve ir muito além do mero acesso técnico a cuidados médicos. A verdadeira hospitalidade supõe um encontro humano, em que cada pessoa é recebida na sua integralidade, corpo, mente, cultura e espírito. Saber acolher o outro implica compreender as diferenças culturais nos modos de viver a saúde, a dor e a cura, evitando interpretações redutoras ou práticas discriminatórias.
02 | Migrações em Portugal: breve retrato
Depois de ter sido, ao longo de várias décadas, caracterizado predominantemente como país de emigração, Portugal tornou-se, de forma progressiva, um destino e um ponto de trânsito para migrantes oriundos de diversas regiões, incluindo a Europa, África (Cabo Verde, Angola, Guiné-Bissau), Ásia (Nepal, Índia e Bangladesh ou China) e América Latina (Brasil, Venezuela, entre outros). A evolução recente das migrações para Portugal é marcada por uma crescente heterogeneidade. Já não se trata apenas de fluxos provenientes das antigas colónias, mas de movimentos globais complexos, moldados por fatores económicos, políticos e ambientais. Esta nova realidade traduz o que Vertovec (2007) designa por super-diversity, uma condição que ultrapassa a simples pluralidade de nacionalidades e que inclui também a diversidade de estatutos legais, níveis de qualificação, motivações migratórias, filiações religiosas e estratégias de integração. Por sua vez, esta heterogeneidade desafia as categorias tradicionais com que o Estado e as instituições têm pensado a imigração, exigindo respostas mais flexíveis, inclusivas e adaptadas à complexidade atual. A super-diversidade portuguesa manifesta-se, assim, não apenas nos números, mas também nas formas de pertença e participação social, nas dinâmicas locais de integração e nas novas identidades coletivas que emergem num contexto migratório cada vez mais global e interligado.
Depois de ter sido, ao longo de várias décadas, caracterizado predominantemente como país de emigração, Portugal tornou-se, de forma progressiva, um destino e um ponto de trânsito para migrantes oriundos de diversas regiões, incluindo a Europa, África (Cabo Verde, Angola, Guiné-Bissau), Ásia (Nepal, Índia e Bangladesh ou China) e América Latina (Brasil, Venezuela, entre outros). A evolução recente das migrações para Portugal é marcada por uma crescente heterogeneidade. Já não se trata apenas de fluxos provenientes das antigas colónias, mas de movimentos globais complexos, moldados por fatores económicos, políticos e ambientais. Esta nova realidade traduz o que Vertovec (2007) designa por super-diversity, uma condição que ultrapassa a simples pluralidade de nacionalidades e que inclui também a diversidade de estatutos legais, níveis de qualificação, motivações migratórias, filiações religiosas e estratégias de integração. Por sua vez, esta heterogeneidade desafia as categorias tradicionais com que o Estado e as instituições têm pensado a imigração, exigindo respostas mais flexíveis, inclusivas e adaptadas à complexidade atual. A super-diversidade portuguesa manifesta-se, assim, não apenas nos números, mas também nas formas de pertença e participação social, nas dinâmicas locais de integração e nas novas identidades coletivas que emergem num contexto migratório cada vez mais global e interligado.
Conforme se observa no Gráfico 2, a população portuguesa tende a concentrar-se em ocupações mais qualificadas. Em contraste, os residentes de outras nacionalidades apresentam uma forte presença em setores de atividade como a construção civil, a agricultura ou serviços de limpeza, em empregos, geralmente, menos qualificados e com níveis salariais mais baixos.
03 | O enquadramento normativo e ético
Naquele que é um texto fundador no reconhecimento dos direitos e deveres sociais, a Constituição da República Portuguesa (CRP) consagra o princípio da universalidade do direito à saúde. De acordo com o artigo 64.º, o direito à proteção da saúde é realizado através de um Serviço Nacional de Saúde (SNS), universal e geral, tendencialmente gratuito[1]. No que respeita especificamente aos cidadãos estrangeiros e imigrantes, a legislação portuguesa garante igualmente acesso aos cuidados de saúde. A Lei n.º 23/2007, de 4 de julho (Lei de Estrangeiros) prevê que os cidadãos estrangeiros residentes em Portugal tenham acesso ao SNS em condições idênticas às dos nacionais. Mesmo em situação irregular, circulares normativas da Direção-Geral da Saúde (e.g. Circular Normativa n.º 12/2009 e posteriores atualizações) asseguram o acesso a cuidados materno-infantis, vacinação, cuidados de saúde urgentes e tratamento de doenças transmissíveis. Fora desses contextos, os cuidados médicos podem ter custos, avaliados conforme as normas em vigor e a situação socioeconómica do utente. As unidades de saúde devem atender todos os cidadãos, independentemente da sua situação documental, encaminhando os sem prova de residência para a Agência para a Integração, Migrações e Asilo (AIMA) ou os Centros Locais de Apoio à Integração de Migrantes (CLAIM) para apoio na regularização. Neste contexto, a experiência portuguesa revela a intenção de garantir direitos universais em saúde, embora persistam diferenças entre o que a lei prevê e o que se pratica no SNS.
04 | “Portas de entrada” no sistema de saúde e exemplos de boas práticas
Em Portugal, o acesso da população migrante aos serviços de saúde, especialmente ao SNS, faz-se por múltiplas vias. Muitos recorrem aos Centros de Saúde para inscrição junto do médico de família, enquanto outros utilizam os serviços de urgência como primeira porta de entrada no sistema. O acesso também ocorre através de programas de saúde pública, como vacinação, rastreios de doenças infeciosas ou cuidados materno-infantis. Paralelamente, mediadores interculturais e associações comunitárias desempenham um papel essencial ao facilitar marcações, traduções e acompanhamento. Por fim, as pastorais diocesanas da saúde e diversas organizações religiosas oferecem apoio espiritual, social e logístico, funcionando frequentemente como uma ponte entre os utentes e os serviços de saúde. Nesta medida e, numa perspetiva humanista, pretende-se que estes espaços de acolhimento permitam a integração e a densificação de um sentimento de integração e de pertença à comunidade (Santos, 2007).
Apesar destas vias de acesso, persistem barreiras como a língua, a baixa literacia em saúde, o desconhecimento dos direitos e o medo de discriminação, agravadas por desigualdades socioeconómicas entre grupos migrantes. Os imigrantes enfrentam frequentemente barreiras no acesso aos cuidados de saúde, sejam legais, administrativas, ligadas à qualidade dos serviços ou à sua condição migratória (Oliveira & Gomes, 2018). Quem dispõe de mais recursos financeiros ou seguro de saúde acede mais facilmente aos cuidados médicos, públicos ou privados. Também o nível de escolarização influencia as atitudes face à saúde e a capacidade de usar os serviços disponíveis (Maia, et al., 2024). Importa ainda considerar fatores ligados às condições de vida, ao stress laboral, à adaptação à sociedade de acolhimento, aos riscos da migração, à saudade e aos desafios do quotidiano (Padilla, 2013).
Admitindo que o acesso aos serviços de saúde constitui um dos principais desafios no processo de integração dos imigrantes, têm sido desenvolvidas diversas iniciativas por organizações da sociedade civil, nomeadamente associações de imigrantes e organizações não governamentais (ONG), que procuram reforçar e complementar a intervenção do Estado português. Em 2004, foram criados os Centros Nacionais de Apoio e Integração de Migrantes (CNAIM), então sob tutela do Alto Comissariado para as Migrações (ACM) e, desde 2023, integrados na AIMA. Reúnem num só espaço vários serviços públicos e apoios especializados, funcionando como referência no acolhimento e integração de migrantes. Os CNAIM oferecem um serviço integrado (one stop shop), reunindo num mesmo espaço físico diversos serviços da Administração Pública e gabinetes de apoio especializado, constituindo-se como pontos de referência na resposta às necessidades dos cidadãos migrantes (Oliveira, Abranches & Healy, 2009). No âmbito dos CNAIM, um protocolo com o Ministério da Saúde levou à criação do Gabinete de Apoio à Saúde, que identifica barreiras no acesso ao SNS, informa sobre direitos e deveres, articula com unidades de saúde e acompanha utentes em situação de vulnerabilidade (Horta & Carvalho, 2007).
Além do Gabinete de Saúde nos CNAIM, o Estado criou, em 2006, o Serviço de Tradução Telefónica (STT) para facilitar a comunicação entre imigrantes e serviços públicos, sobretudo de saúde. O STT, gratuito e disponível em cerca de 70 idiomas, funciona em conferência tripartida entre o técnico, o utente e o intérprete, sendo uma ferramenta essencial para promover inclusão e acessibilidade. Na área da saúde, o STT tem uma aplicação direta e relevante. Um bom exemplo é a Unidade de Saúde Familiar da Baixa-Chiado, em Lisboa, onde cerca de 29% dos utentes são estrangeiros, provenientes de mais de 90 países (Ribeiro, 2025). Com o uso deste serviço, os profissionais de saúde comunicam melhor com os utentes imigrantes, explicam diagnósticos e tratamentos com clareza, evitam erros e garantem um atendimento mais humano e culturalmente sensível. Apesar da sua importância, o STT enfrenta desafios como a falta de intérpretes, problemas técnicos, pouca formação e questões de confidencialidade. Os profissionais de saúde defendem mais investimento, acesso simplificado e formação conjunta em competências culturais e sanitárias (Ribeiro, 2025).
Atualmente existem mais de 150 CLAIM, dispersos territorialmente por todo o país, que desempenham um papel central no acolhimento e integração de imigrantes. Oferecem apoio em várias áreas, sobretudo na regularização documental, e funcionam em rede com parceiros locais, facilitando o contacto com serviços públicos, incluindo os de saúde, reduzindo barreiras de acesso. No campo da saúde, a pandemia de COVID-19 evidenciou a importância do trabalho dos CNAIM e dos CLAIM, especialmente durante os períodos de confinamento e emergência sanitária. Perante a complexidade do contexto vivido, foi fundamental comunicar com os cidadãos imigrantes nas suas próprias línguas, explicando de forma clara as medidas de isolamento, prevenção e vacinação. Muitos encontravam-se em situação de vulnerabilidade, longe do país de origem e sem redes de apoio. Os CNAIM e os CLAIM tiveram um papel crucial na divulgação de informações sanitárias, no apoio à vacinação e na articulação com os serviços de saúde, contribuindo para uma resposta inclusiva e equitativa em saúde pública. Nestes e em outros espaços, a mediação intercultural tem-se afirmado como uma estratégia fundamental para a integração das populações migrantes, sobretudo nos setores da saúde e da educação. Os mediadores e intérpretes interculturais atuam como ponte entre os serviços públicos e os utentes, promovendo a compreensão mútua entre profissionais e cidadãos migrantes, especialmente entre falantes de línguas como crioulo cabo-verdiano, bengali ou mandarim (Oliveira & Galego, 2005). Em Portugal, várias iniciativas públicas e locais têm reforçado a institucionalização da mediação intercultural. Destaca-se o Projeto de Mediadores Municipais e Interculturais, criado em 2013 e atualmente coordenado pela AIMA, que promove a inclusão social e a igualdade de acesso aos serviços públicos através da presença de mediadores em municípios, escolas, unidades de saúde e forças de segurança.
Apesar dos esforços institucionais, e das várias iniciativas que procuram garantir a universalidade dos cuidados de saúde, persistem barreiras no acesso dos imigrantes aos serviços. Entre elas, destacam-se a falta de formação dos profissionais para lidar com a diversidade cultural e o desconhecimento da legislação. É comum, por exemplo, a exigência indevida do número de utente quando a lei permite o acesso sem esse requisito, bem como a dificuldade em obtê-lo ou em conseguir inscrição junto de um médico de família, problema também partilhado por muitos cidadãos nacionais.
Neste contexto, a presença de mediadores interculturais nos serviços de saúde – capazes de dar apoio linguístico e cultural durante as consultas médicas – revela-se uma medida eficaz para prevenir situações de exclusão e promover uma comunicação mais acessível, humanizada e culturalmente acessível (Ribeiro, 2025). Torna-se, portanto, essencial reforçar as boas práticas já existentes e garantir a sua disseminação a nível nacional, assegurando que todos os cidadãos migrantes possam aceder aos cuidados de saúde de forma digna, equitativa e eficaz.
05 | Práticas de hospitalidade em saúde
Nos serviços de saúde portugueses, a hospitalidade tem-se traduzido em práticas concretas, sustentadas por parcerias entre instituições públicas, associações e comunidades religiosas. Destaca-se o papel das associações de migrantes, que em colaboração com as dioceses e respetivas paróquias e outras organizações, com ou sem matriz religiosa, como a Cruz Vermelha, a Cáritas ou o Serviço Jesuíta aos Refugiados, prestam apoio a famílias recém-chegadas e facilitam o seu acolhimento. Outro exemplo surge na formação dos profissionais de saúde, com alguns hospitais a integrarem módulos sobre competências interculturais e ética da hospitalidade nos seus programas de formação contínua.
No âmbito dos cuidados espirituais inclusivos, as capelanias hospitalares têm promovido práticas de diálogo inter-religioso e ecuménico, articulando-se com líderes de diferentes confissões, muçulmanas, hindus, evangélicas e cristãs, para garantir um acompanhamento espiritual respeitador da diversidade de crenças e valores presentes entre doentes e profissionais. Conjuntamente, estas práticas mostram que a hospitalidade não é apenas uma atitude pessoal, mas um compromisso coletivo e institucional, orientado para o acolhimento digno e respeitoso da diversidade.
06 | Dilemas éticos frequentes
Apesar das boas práticas identificadas, persistem dilemas éticos que requerem uma reflexão aprofundada, nomeadamente, no equilíbrio entre recursos limitados e as necessidades acrescidas de populações vulneráveis. Dilemas como os que se enumeram a seguir revelam que a hospitalidade é também uma prática de discernimento ético.
Direitos e recursos: como assegurar o acesso universal a cuidados de saúde quando há escassez de médicos de família e longas listas de espera?
Documentação e acesso: como garantir cuidados a pessoas em situação irregular sem comprometer procedimentos administrativos?
Proteção de menores: em casos de famílias migrantes em situação precária, como equilibrar o dever de confidencialidade com a proteção da criança?
Saúde mental transcultural: como distinguir o sofrimento migratório normalizado de patologias clínicas, respeitando culturas e tradições?
Estes dilemas permanecem, todavia, sem resolução definitiva.
07 | Conclusão
A experiência portuguesa demonstra que a hospitalidade em saúde não é apenas uma questão de boas intenções, mas o resultado de uma arquitetura institucional, ética e comunitária que procura traduzir em prática(s) o princípio da universalidade do SNS. O diálogo entre políticas públicas, mediadores interculturais, comunidades locais e instituições religiosas tem revelado caminhos inovadores para conciliar direitos humanos, diversidade cultural e cuidado clínico.
Contudo, o percurso permanece inacabado. As desigualdades no acesso, as barreiras linguísticas e burocráticas e a escassez de recursos humanos continuam a desafiar a concretização plena desse ideal. Apesar dos avanços – como o alargamento do acesso aos serviços de saúde – persistem contradições internas, exclusões estruturais e diferenças na aplicação das políticas entre grupos e territórios.
A hospitalidade em saúde é, simultaneamente, uma competência organizacional e espiritual, que se manifesta no encontro entre migrantes e profissionais que, apesar das dificuldades, procuram garantir dignidade, cuidado e inclusão. O caso português constitui, assim, um estudo de caso complexo e em constante evolução, revelando como os padrões migratórios contemporâneos desafiam os modelos tradicionais de inclusão e pertença.
Num contexto marcado por um mosaico de origens culturais e linguísticas, emergem necessidades de saúde diversas e complexas, que exigem respostas mais adequadas e sensíveis à pluralidade sociocultural. A hospitalidade, entendida como compromisso ético coletivo, não se improvisa, mas constrói-se com políticas, práticas e convicções partilhadas, capazes de inspirar sociedades mais justas e solidárias.
Notas bibliográficas
[1] Este preceito constitucional encontra concretização em diversos diplomas como a Lei de Bases da Saúde (Lei n.º 95/2019, de 4 de setembro) ou o regime jurídico do SNS (Decreto-Lei n.º 11/93, de 15 de janeiro, e diplomas subsequentes).
Bibliografía
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