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O humor na Pastoral da Saúde – um céu triste não convence

05 | Num.345
O humor na Pastoral da Saúde
– um céu triste não convence

Original en Portugués
Leer la traducción al Español aquí

Padre Jorge Vilaça
Padre, coordenador da Pastoral da Saúde e assistente espiritual em hospitais privados. Braga (Portugal)

Por meio de uma ficção satírica que anuncia a morte do Diabo, o Padre Vilaça oferece uma reflexão crítica sobre a transformação contemporânea da iconografia do mal e sua transição de categorias religiosas tradicionais para novas formas de violência cultural, tecnológica, política e social.
Empregando recursos do jornalismo ficcional, da ironia e da paródia dos discursos midiáticos, eclesiásticos e digitais, a narrativa questiona a relevância decrescente do Diabo como explicação para o mal, ao mesmo tempo que destaca a persistência de dinâmicas destrutivas incorporadas no narcisismo, na desinformação, na inteligência artificial desumanizada, no discurso de ódio e em novas formas de manipulação coletiva.
O texto entrelaça referências bíblicas, teológicas, culturais e populares para explorar a ressonância simbólica do Diabo em uma sociedade secularizada e — por meio do humor — reflete sobre a responsabilidade humana pela geração do mal. A sátira torna-se, assim, uma ferramenta hermenêutica que convida a uma reconsideração da relação entre fé, cultura contemporânea e discernimento espiritual.
Palavras-chave: Diabo, Humor, Secularização, Mal, Espiritualidade.
In this satirical fiction announcing the death of the devil, Fr Vilaça offers a critical reflection on the contemporary transformation of the imaginary of evil and its shift from traditional religious categories towards new forms of cultural, technological, political and social violence.
By using fictional journalistic reporting, irony, and parody of the digital, media and ecclesiastical languages, this narrative questions the declining importance of the devil as an explanation for evil, while highlighting the persistence of destructive dynamics embodied by narcissism, disinformation, dehumanised artificial intelligence, hate discourses, and new forms of collective manipulation.
The text intertwines biblical, theological, cultural and popular references to explore the symbolic relevance of the figure of the devil in a secularised society and, in a humorous vein, it presents a reflection on human responsibility in the production of evil. In this way, satire becomes a hermeneutical tool that invites us to reconsider the relationship between faith, contemporary culture and spiritual discernment.
Keywords: Devil, humour, secularisation, evil, spirituality.

Contudo, as investigações ainda estão no terreno e os peritos forenses mantêm aberta a hipóteses de crime passional, dada a descoberta de um bilhete enigmático junto ao espírito do defunto que – segundo tivemos acesso em primeira mão – tem psicografado: “andas a tecê-las, chifrudo! Vais comer o pão que amassaste!” Mantém-se, por isso, aberta a tese de que alguém possa ter matado o imortal diabo. Aguardam-se os resultados da autópsia que – avisam –  pode ser inconclusiva por imaterialidade do ser.

A tese de suicídio, para já, também não foi afastada. Mesmo após longos anos de caos perfeito e de maquinações inteligentíssimas, corriam rumores da sua decadência funcional: foi diagnosticado com síndrome da inutilidade progressiva e as suas aparições públicas denotavam desmazelo profissional. “Já não há pecadores a sério nem candidatos a santos”, foi a última entrada que o diabo postou nas redes sociais, datada da última sexta-feira, dia 13, à qual reagiram 3 pessoas com um emoji a chorar e 666 comentários com “amen” seguido de um emoji de mãozinhas erguidas, feitos a partir – maioritariamente – de contas falsas.

De facto, havia boatos de que o Diretor dos Recursos Humanos do Sheol o acusara de falta de inovação no narcisismo e testemunhas relatam que passava menos tempo a olhar-se ao espelho. Os psicólogos não lhe haviam encontrado utilidade terapêutica e os psiquiatras rotularam-no de dissociativo conversivo, derivado a traumas de infância. Os assistentes espirituais e religiosos sempre diziam que “com o diabo não se brinca” mas não lhes conhecemos uma posição oficial. Os representantes religiosos – que já não estudam anjologia nas faculdades e andam ocupados em causas sociais – não se prestam também a grandes pregações. Oficialmente, a Igreja Católica escreveu uma dezena de documentos em favor da sua existência, porque a Bíblia não lhes permitia escrever o contrário. Do lado do Diabo (entenda-se, da sua existência) permanece a Associação Internacional de Exorcistas, alguns grupos carismáticos, os realizadores de Hollywood, muitos militantes sem causa, e uma multidão anónima que, por vergonha, permanece completamente anónima.

Ultimamente o pobre diabo já não era convidado (enxotado terá sido, dizem) para as grandes festividades carnavalescas de Torres e de Loulé, dos Caretos de Podence e Lazarim, para as Festas dos Diabos em Amarante nem sequer para as solenidades em honra das suas artes em Vilar de Perdizes e mesmo para o imaginário Halloween.

No inferno, as reações à morte do diabo foram comedidas. O mestre fogareiro e os algozes infernais temem o layoff da empresa. A nota oficial do InfernoCM afirma: “Rest in peace, bro. Apelamos à união dos crentes. A vaga do nosso pai será ocupada por um influencer com ideias novas. Maldito sejas!” Imediatamente surgiram centenas de comentários: “Que pare definitivamente de nos envergonhar” e ainda “Queremos um novo pai!” ou “devil forever” e “manifestamente um exagero de notícia”. Entretanto foi anunciado pelo poder das trevas que foi constituída uma comissão parlamentar de inquérito que possivelmente não chegará a nenhuma conclusão.

O Diabo vai ser substituído na sua missão – interinamente – por um ditatorial Algoritmo de inteligência artificial, com 0,1‰ de empatia e de opinião própria, treinado para difundir – gratuitamente – conteúdo xenófobo e racista através das redes sociais, tendo em vista a evolução para um tutorial de conteúdos suicidas e homicidas.

Sabemos que, no céu, o clima é de tensão. O Arcanjo Miguel está pesaroso e afirmou em nome dos ex-combatentes do exército celeste: “quem combateremos agora? Lamentamos a perda do nosso arqui-inimigo com quem passamos bons tempos na infância. No fundo, era um bom espírito! Volta, irmão, estás perdoado!”.

Deus-criador ainda não se pronunciou oficialmente, mas alguém confidenciou o seu desabafo ao ter conhecimento da notícia: “eu avisei que isto ia acontecer? Aconteceu-me o mesmo a mim!”.

Jesus Cristo, ainda não prestou declarações por estar em visita oficial ao purgatório.

Outra declaração esperada era de São Bento que lhe dedicou um poema misterioso em letras maiúsculas: “CRUX SACRA SIT MIHI LUX. NON DRACO SIT MIHI DUX. VADE RETRO SATANA. NUNQUAM SUADE MIHI VANA. SUNT MALA QUAE LIBAS. IPSE VENENA BIBAS”.

Alguns líderes religiosos decretaram orações deprecativas; um político ardiloso – que preferiu o anonimato por medo de represálias – exigiu responsabilidades ao governo. O Papa publicou na rede X um simples emoji com uma caldeira de água benta; um terapeuta holístico convocou uma limpeza energética colectiva; um forum de factos bíblicos descontextualizados criou o hashtag *diabosaiudogrupo. Mais efusivas foram as reações dos escritores de livros de auto-ajuda que saudaram a definitiva saída de cena do mestre da suspeita afirmando que “há quem tenha medo que o medo acabe”.

O diabo, nascido anjo de Deus e espírito imortal, foi o primeiro a discordar da eterna gestão benevolente do paraíso. Fundou o seu próprio unicórnio, com capitais provenientes de um paraíso fiscal, augurando um empreendimento de futuro no ramo do comércio de liberdade.

Deixa como legado aos seus filhos

as letras miudinhas dos contratos que assinamos em cruz (vade retro!),

uma sólida economia que mata (vade retro),

infinitas reuniões de condomínio a que todos se furtam (vade retro!),

fake news com difusão viral (vade retro!);

um dicionário de palavras de ódio (vade retro!)

uma enciclopédia de entidades religiosas contrafeitas (vade retro!)

pedras milagrosas e horóscopos que anteveem o futuro (vade retro!)

uma série de encostos e mau olhados (vade retro!).

Portanto, podem dar-se como extintos os banhos de sal grosso (três vezes por semana), os defumadouros com alecrim e arruda, as unções com óleo santo nas padieiras da portas, o exorcismo menor no Batismo católico e o Credo Batismal.

Entretanto, estão abertas as propostas para as palavras a serem gravadas na sua pedra tumular. Neste momento a proposta mais votada é “morto? Nunca estive!, seguida de perto por “condenado a viver eternamente”.

Os horários e locais das celebrações fúnebres serão anunciados oportunamente.

À família enlutada endereçamos as mais sentidas condolências. 

01 | Com o diabo não se brinca - Obituário de um imortal.

É com pesar que a Direção Geral das Atividades Sagradas acaba de informar que o Diabo morreu. A informação foi partilhada há minutos no site oficial deste organismo, morreu-a-morte.pt.

Morreu satanás, também conhecido pelos seus mais próximos por satã, lúcifer, mamon, azazel, asmodeus, belzebu, demónio, dragão, demo, baal, tinhoso, acusador, canhoto, mafarrico, chifrudo, moloc, rabudo, legião, leviatã, besta, adversário, tentador, príncipe dos infernos, “culpado de tudo”, bode expiatório, mestre do riso demoníaco. 

O porta voz da Polícia Judiciária dá conta de que foi encontrado cadáver um ser espiritual, exalando um intenso cheiro a enxofre, mas não tão feio quanto o pintavam. Numa primeira análise, afirmam os inspetores, suspeita-se que não tenha resistido aos ferimentos do pensamento científico, à indiferença letal dos religiosos, à capacidade auto destruidora dos humanos, à contrafação de almas por virtualizações, à proliferação de cabeças entulhadas e à luta feroz de tiktokers neopentecostais.

Deseo de Muerte Anticipada - Desejo antecipado de morte

Nota de rodapé:

As Comissões Episcopais da Liturgia e Espiritualidade e da Educação Cristã e Doutrina da Fé da Conferência Episcopal Portuguesa, para responder a inúmeras perguntas e após um longo discernimento, propôs-se refletir sobre os exorcismos e a dimensão terapêutica da espiritualidade cristã num encontro realizado num setembro passado. Compareceram quase todas as dioceses portuguesas, para surpresa de todos, sendo que várias Dioceses estavam representadas pelo próprio Bispo, sem que tivessem sido formalmente convidados. Escutou-se um biblista, um liturgista, uma psiquiatra e vários pastoralistas. Houve ainda tempo para um painel muito rico com pessoas que, no terreno, escutam e acompanham pessoas em sofrimento nas suas diversas dimensões, com particular atenção ao sofrimento espiritual e religioso.